Nossas histórias de adoção

Quando iniciei minha jornada na maternidade adotiva, me preparei, naturalmente, mais teoricamente do que na prática. Assisti a vídeos, filmes e acompanhei depoimentos – presenciais e virtuais – em grupos de adoção. Também li diversos livros sobre adoção, maternidade e educação.

Antes de tudo, advirto: nenhuma teoria ou vivência relatada por outras mães se compara à experiência pessoal na prática da maternagem, quer adotiva, quer biológica.

Há pouco mais de 14 anos, dei o primeiro passo na jornada até a minha maternidade. Não me lembro exatamente de quando surgiu a vontade de ser mãe, mas sei que era um sonho de infância: mesmo se eu não me casasse, queria ser mãe. E de uma menina.

Certa da minha decisão, iniciei o processo pelo caminho da adoção. Na época parecia uma eternidade, mas, olhando para trás, sei que foi rápido: entre a habilitação e a chegada da minha filha, foi um ano e cinco meses.

A decisão de ser mãe por meio da adoção perpassa a minha própria história, pela minha existência e pela minha própria adoção. Sim, também sou filha por adoção – mas uma adoção realizada antes do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e da Nova Lei de Adoção (que já não é mais tão nova assim).

De outra geração, meus pais adotivos optaram por manter minha origem em um círculo restrito; apenas familiares e amigos muito próximos sabiam. Agora, todos saberão. Somente quando iniciei a trajetória para adotar a minha filha é que descobri que a forma como eles lidaram com o assunto não era a mais adequada. No entanto, era a dinâmica comum na época – a única que sabiam exercer e a que eu também conhecia até ali.

Apesar de sempre ter havido um desconforto dentro de mim que eu não sabia nomear, respeitei a decisão deles até o dia que eles partiram para o lado de lá da vida.

Não tenho muitas lembranças concretas daqueles tempos. Talvez por um mecanismo de defesa, bloqueei a maior parte das memórias. Lembro-me de ter tomado conhecimento da minha adoção por volta dos dez anos de idade, justamente quando se finalizou o processo judicial de troca de filiação e nome. Não recordo se eles se sentaram comigo para conversar; só lembro que foi nessa época.

Eu era filha da irmã do meu pai adotivo. A versão que guardei foi a de que, assim que nasci – de um parto de gêmeos em que meu irmão não resistiu –, minha mãe contraiu tuberculose. Meus pais adotivos, recém-casados, assumiram meus cuidados e, posteriormente, a adoção. Não me detalharam como foi o acordo com ela; apenas que eu fiquei. Por isso, mantivemos contato enquanto permanecemos na nossa cidade natal antes de nos mudar para Cuiabá. Eu convivia, então, com minha mãe biológica, dois irmãos que também eram gêmeos e toda a família ampliada: avó, tios, tias e primos. Sem consciência de conceitos complexos, eu não questionava nada na época – ao menos, não que eu me lembre. Meu pai biológico não morava na mesma cidade. O relato é que, logo após meu nascimento, ele foi embora para São Paulo com outra mulher e lá constituiu família. Apesar de crescer como filha única dos meus pais adotivos, descobri que, além dos gêmeos da minha mãe, tenho mais uma irmã e um irmão por parte de pai.

Na adolescência – fase tão desafiadora –, comecei a querer saber secretamente mais sobre minha origem. Queria, principalmente, saber se me parecia fisicamente com meu pai biológico, já que com minha mãe a semelhança era imensa. Passei anos da minha vida sonhando em encontrá-lo um dia e entender os motivos da nossa separação, por que havia ‘me abandonado’. Planejava até contratar um detetive particular para localizá-lo. Mas esse sentimento era guardado a sete chaves, pois o assunto era um tabu em casa. Não era exatamente proibido, mas sempre havia um desconforto invisível quando a conversa surgia. Por isso, por muito tempo, só tive um lado da história, apesar de ser a minha história. No entendimento dos meus pais adotivos, querer conhecer ou se aproximar da família biológica parecia uma ingratidão com quem os criou. Não os culpo. Eles foram o melhor que puderam ser: meus pais queridos, que amo e de quem sinto falta todos os dias da minha vida.

Eu não conhecia a legislação que resguarda o direito de buscar a origem biológica. Hoje, tendo conhecimento dos conceitos e das leis, entendo profundamente minhas dores ocultas.

Sem conseguir nomear o que sentia, vivi durante anos o luto do abandono, algo que marcou intensamente minha trajetória, minhas escolhas de vida e meus relacionamentos, mesmo que de forma inconsciente.

Depois de anos de curiosidade, por ironia do destino, fui procurada no Orkut por uma irmã. Ela me mandou uma mensagem dizendo que poderíamos ser filhas do mesmo pai, relatou a história que conhecia e me enviou fotos. Desde então, outro universo se abriu. Guardei essa descoberta em segredo por muito tempo. Só alguns anos depois tive coragem de contar para a mamãe, mas penso que ela nunca tenha contado para o papai – até porque, como já disse, eles tinham o entendimento de que essa aproximação seria uma ingratidão. E o assunto seguiu proibido.

Nunca encontrei minha irmã pessoalmente, mas seguimos nos falando, ainda que menos do que eu gostaria. Ela me lembrou de uma teoria que tínhamos: a de que ela seria o meu irmão gêmeo reencarnado, aquele que não resistiu ao parto. Curiosamente, ela nasceu exatamente um ano e um dia depois de mim. E essa ideia segue nos confortando, porque ela nos aproxima espiritualmente e afetuosamente. Após um tempo, ela me colocou em contato com nosso pai via WhatsApp. Eu não me permiti muita intimidade, certamente por causa daquela culpa involuntária que eu carregava, acreditando que estava sendo ingrata com meus pais adotivos. Com minha mãe biológica não foi diferente, conversava por telefone em datas especiais, e quando ela adoeceu, passei a me comunicar mais vezes com uma sobrinha, motivada por notícias da saúde de minha mãe. Como ela partiu muito rápido, tomada por um câncer devastador, acabei deixando de fazer as perguntas que tanto queria.

Essas perguntas sem respostas foram embora com a partida dos meus pais biológicos. Hoje, carrego uma dor e uma culpa imensas por não ter me aproximado deles depois que meus pais adotivos partiram. Falhei sem saber exatamente o porquê. Travei. Não consegui me aproximar da forma como hoje penso que deveria. Sei que ficar remoendo essa dor só me fará mal, mas ainda me apego a ela; acho que é uma forma de estar com eles, ainda que a uma vida de distância.

Mas nem tudo está perdido. Nesse desenrolar, descobri que tenho um tio, irmão mais novo do meu pai, que por muito tempo foi o suporte da minha mãe biológica e dos meus irmãos. Conversamos algumas vezes por WhatsApp logo após a partida do meu pai, mas ainda não consegui construir a proximidade que gostaria.

Percebo que em todas as minhas vivências, talvez por um mecanismo de defesa, tenho a tendência natural de não me abrir profundamente para ninguém – amigos ou parentes. Construo uma barreira de segurança por medo de ser rejeitada ou deixada novamente. É um sentimento doído de não pertencimento que permeia minha existência, mesmo sabendo ser amada por muitas pessoas que também amo profundamente. Acredito que essa seja uma característica frequente na filiação adotiva e também em filhos que passaram por rupturas familiares precoces. É uma teoria empírica minha, sem respaldo científico, mas baseada no que sinto no meu íntimo.

Sobre a minha própria maternidade adotiva, na época da minha decisão, surgiram os questionamentos, as críticas veladas e os preconceitos travestidos de preocupação.

Das inúmeras perguntas, as mais comuns eram: por que eu não tinha uma filha ‘minha’ (em uma produção independente), ou por que eu não ‘pegava’ uma bebê para que ela viesse com o ‘meu jeito’.

Em primeiro lugar, o processo de adoção me legitimou como mãe. Portanto, minha filha é minha para o resto da vida, pois o ato é irrevogável. Em relação a ter o ‘meu jeito’, sempre pensei que ela deveria ter o jeito dela – e ela tem, e muito, desde pequena. Já o que eu transmitiria a ela em termos de conhecimento, valores e vivências, isso viria (e veio) com o tempo.

Nunca me passou pela cabeça fazer inseminação artificial ou fertilização in vitro. Primeiro por questões financeiras, e segundo porque, independentemente de poder ou não engravidar biologicamente, a adoção sempre foi minha primeira opção pelo simples desejo de dar amor, afeto e me doar a uma criança que havia sido privada disso.

Muitas pessoas também me questionaram: ‘Mas e quando sua filha quiser conhecer a família dela?’ Eu sempre respondi que a ajudaria a procurá-los. E foi exatamente o que fiz. Há pouco mais de um ano, quando ela completou 18 anos, reencontrou sua família biológica: irmãs, tias, primas e sobrinhos.

Depois de um ano e cinco meses na fila de adoção, no dia 10 de outubro de 2013, minha filha nasceu para mim. Ela tinha seis anos, quase sete. Uma menina muito linda, amorosa, carinhosa, dengosa e, também, bem geniosa.

Nossas vidas e histórias se entrelaçaram e, em resposta a esse encontro, aprendi mais sobre mim mesma.

A fase de adaptação não foi um mar de rosas – eu sabia que não seria – mas persistimos com amor. Seguimos superando cada obstáculo que surgiu e que ainda surgirá na nossa caminhada.

Hoje já se passaram treze anos exercendo o papel mais desafiador com que Deus me presenteou. Nesse tempo, li artigos, estudei sobre educação e, nos primeiros anos da adoção, participei de um grupo de apoio pós-adoção que foi uma verdadeira bênção. Ali constatei que não estava sozinha. Com tudo isso, aprendi um pouco mais da arte da maternidade — e não falo apenas do filho adotivo, mas de todos os filhos.

Sei que muitas pessoas julgam minhas escolhas e vão continuar julgando, mas o defeito está nos olhos delas. Ninguém vai caminhar os meus passos, nem viver a minha vida por mim e, principalmente, não vão pagar as minhas contas. Sei também que, graças a Deus, não há apenas essas pessoas equivocadas no mundo. Há muitas outras boas, e é com elas que tenho de somar minhas forças e mudar o mundo para melhor – porque eu acredito que estamos fadadas à felicidade –, cedo ou tarde.

Certa de que não existe zona de conforto na vida – e na maternidade não é diferente –, vivemos num constante curso de autoconhecimento. Cada passo que dou, me conheço um pouco mais, descubro ‘Lilis’ que até outro dia sequer imaginei existir. Sigo tateando, muitas vezes no escuro, tentando a cada momento ser uma pessoa melhor. Muitas vezes falhando, mas persisto com muita paciência, fé em Deus e esperança de que tudo siga acontecendo da forma que dá para ser. Tudo para que tenhamos uma vida mais leve e de alegrias cotidianas, juntas das pessoas queridas das nossas vidas.

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