“Nem todo adeus precisa acontecer em um enterro.” Li essa frase no perfil de um rapaz que sigo no Instagram: Gustavo Brunow. É uma página profissional com inúmeros relatos pessoais. Ele conta, entre outras coisas, os abusos sofridos na infância por pessoas que, em teoria, deveriam amá-lo e protegê-lo. Quem tiver curiosidade de conhecer, o perfil é o @ogustavobrunow.
Minha crônica não será sobre ele, nem sobre o que ele relata ali. O texto é sobre a frase que dá título a estas linhas.
Quando li o carrossel do post dele — que era muito pessoal e doído —, apesar de toda a relevância do conteúdo, apenas aquela frase saltou aos meus olhos. Porque, ao longo dos meus 52 anos, já me despedi inúmeras vezes. Sozinha e intimamente, sem briga ou necessariamente uma ruptura. Apenas fechei ciclos. De algumas pessoas me afastei porque me machucaram — pode até ser que nem saibam disso, e não vou me dar ao trabalho de avisar. Não tenho a obrigação de educar ninguém, e uma possível reconciliação não me agregaria nada; a pessoa simplesmente deixou de ter acesso a minha vida, e eu, à dela.
Tenho, certamente, minha parcela de responsabilidade nessa história. Criei, sozinha, expectativas irreais, mas que faziam sentido em determinado momento. E a ferida não cicatrizou por completo; é um assunto ainda inacabado que me incomoda demais porque me gera culpa. Instintivamente, desenvolvi a mania — qualidade ou defeito — de tentar agradar: ser gentil, simpática, amiga demais, e não saber dizer “não”, ainda que a situação me machucasse por dentro. Hoje, com o acesso à informação que as redes digitais trazem, entendi que o nome disso também é abuso.
Quando mamãe era viva e eu me enraivecia com algo ou alguém, ela, com sua sabedoria nata, me dizia: “Lili, tira essa raivinha de dentro de você, menina, isso vai te fazer mal.” Na época, eu não levava a sério. Hoje entendo o que ela queria dizer. Ainda guardo algumas raivinhas — que, na verdade, viraram mágoas, o que sei que é ainda mais danoso para mim mesma.
Como não faço terapia atualmente, essas mágoas ficam guardadas em suas devidas gavetinhas, na minha cachola. Mas, rebeldes, vez ou outra elas saem de lá para bagunçar o meu equilíbrio. Entendo, finalmente, o conselho de mamãe. Fechar um ciclo não é apenas parar de falar com alguém; é esvaziar a gaveta por completo. Para o adeus ser definitivo, ele precisa acontecer primeiro do lado de dentro. Só assim paramos de carregar o peso do outro e passamos a caminhar leve, trocando o rancor pela paz de espírito. Isso exige a coragem de me perdoar pelas expectativas que criei e pela culpa de ter sumido em silêncio. Cansei de carregar mágoas de estimação. A vida é curta demais para transformar a mente em um depósito de pendências. Escolho, hoje, o silêncio que liberta e o adeus que cura.
