Durante muito tempo eu achei que sabia o que era ser artista.
Eu nasci e cresci num mundo cercada de arte.
Quando me deparei artista, a gente não falava em carreira, algoritmo, mercado.
A gente falava e cantava da vida.
Cantávamos porque algo em nós precisava cantar.
Dançávamos porque algo em nós precisava dançar, porque o corpo não cabia só no silêncio.
Escrevíamos, porque certas coisas só saíam de dentro de nós, quando escrevíamos no papel.
Naqueles tempos, de bela juventude, eu acreditava profundamente que a arte tinha uma função no mundo.
Ela nos tornava mais humanos, mais humanas. A arte nos ensinava a olhar para o mundo.
A sentir o outro, a reconhecer a beleza e a dor em sentir que estou viva!
E isso era suficiente.
Depois o tempo passou, claro ou obscuro, como tudo passa.
E de repente, a palavra artista começou a mudar de significado.
Virou profissão, posicionamento, estratégia, aparecimento, visibilidade, atingir cada vez mais gente. ‘Bombar”!
Como se a medida da arte fosse o alcance.
Então, comecei a perceber uma coisa estranha.
Em diversos contextos em que me embrenhava, quanto mais visibilidade existia, menos transformação nesses ambientes acontecia.
Uma pergunta começou a me atravessar:
– O que é ser artista, afinal?
Porque muitas das vezes a arte brota em lugares onde justamente ninguém está amplificadamente olhando.
Às vezes está numa senhora simples do interior que canta enquanto varre o quintal.
Às vezes, também, está numa breve contemplação de uma simples, mas bela cena.
Ali naqueles gestos pequenos muitas das vezes há grandiosas artes do que milhares de pessoas dizendo coisas que não nutrem ninguém.
Arte não é volume.
Arte é plena possibilidade de transformação.
Arte é quando olho pra você e algo muda.
Olho para mim e ela me penetra.
Olho a arte entre nós e tudo se transporta para algum lugar inexplicável.
A verdadeira arte não distrai, ela atravessa, abre um espaço dentro da gente onde antes não havia absolutamente nada.
Fui compreendendo assim, com o tempo, que muitas das coisas que chamamos de arte é apenas um espetáculo que não transforma, não nutre, não toca onde importa.
Durante um tempo, isso me confundiu porque todo mundo estava correndo para o mesmo lugar, e eu não conseguia correr junto.
Achavam que eu estava perdida.
E talvez eu estivesse mesmo.
Eu me perdi de muitos caminhos que o mundo chama de sucesso!
Mas hoje vejo que me perder foi muito necessário.
Porque no meio do turbilhão desse perder, eu aos poucos fui voltando para aquilo que me fez ser artista desde seu começo.
O encontro, a troca real, olhar alguém nos olhos marejados e sentir que algo está acontecendo dentro e fora.
A arte pra mim é isso.
Não depende de palco, não depende de fama, não depende de multidão.
Às vezes acontece numa conversa, numa sala pequena, num toque, acontece no silêncio.
A arte verdadeira não precisa provar nada.
Ela simplesmente transforma.
Às vezes é um pensamento que se abre, uma palavra que encontra lugar, uma expressão que alivia o peito.
Um gesto que desloca profundezas dentro da gente pra outro lugar.
É quando criações, saindo do humano, transformam outro ser em humano.
Mesmo que seja só um alvo, uma seta.
Algo no mundo reverbera e modifica.
Talvez você nem se chame de artista, mas se algo anda por aí dentro transbordando e recalculando rotas de outros mundos ao seu redor.
Então provavelmente algo já está acontecendo.
Se isso for arte, então eu também sigo.
Juliana Capistrano

Sim, não tenho dúvida, amiga!
Já disse e repito, é uma artista nata, de sensibilidade ímpar e astral inspirador!
😉
Simmmm uma grande artista… em cada pintura dá pra sentir a alma, como se cada quadro tivesse um pedaço do seu coração,sentimentos ganham forma e tocam quem olha de um jeito único.